A poesia é a arte da feliz combinação das palavras, tendo por base a liberdade e prisão implícitas a tudo o que é humano. Elas mesmas, liberdade e prisão, enformam o poema em consequência da liberdade e prisão do próprio poeta. Convém notar, antes de mais, que o poeta é humano, e que o humano muitas vezes se assemelha à formiga, a sociedade ao formigueiro, a história ao progresso temporal do formigueiro – e por aí em diante. Estamos sujeitos a um complexo de condicionantes. Há mesmo quem diga que a liberdade não passa de uma prisão muito complexa onde o humano toma orgulho na sua condição de formiga livre. Segundo esta ideia, será liberdade tudo aquilo que não pareça ser prisão: e assim é também na poesia.
A poesia, essa arte combinatória, diz o que de outra forma seria indizível. Mais do que isso: é, em termos históricos, a tentativa de dizer o indizível: motivo e fracasso originais de toda a poesia. Neste aspecto assemelha-se à religião. Na Antiguidade, afirmava-se que o aedo era o intérprete da divindade, e que o seu canto lhe era sugerido por acção directa do deuses. Esta ingenuidade persiste até aos nossos dias. A poesia moderna participa de um vestígio de superstição: é preciso saber jogar com o que o humano costuma ter dificuldades em aceitar ou compreender. Talvez por isso Cesariny falasse em prestidigitação. O poeta ele mesmo vê-se no meio deste jogo, e pode muito bem suspender uma eventual crença na razão humana (ou em tudo mais). Subitamente, tudo se torna relativo, precário, obscuro. Outras vezes, pelo contrário, tudo é extremamente simples e diáfano, quase sobre-humano. A poesia é uma interrupção da lucidez – mas conseguida de forma mais ou menos lúcida. A poesia moderna interrompe a lucidez de forma extremamente lúcida. É esta a sua ética.
Teses:
1) A poesia é uma actividade extremamente existencial: consiste na reflexão da formiga sobre a sua própria liberdade, a todos os níveis.
2) A poesia é parte integrante da complexa imperfeição humana: seres perfeitos não teriam necessidade de poesia. Platão foi o primeiro a notá-lo.
3) A poesia interrompe, pondo em causa, o fluxo “natural” de ideias e sentimentos. É um mecanismo de possibilidades.
4) A interrupção, enquanto carácter da poesia, é um jogo de expectativas, das quais o poeta é intérprete e participante. O poeta joga, o poeta brinca com o humano.